Anos Terríveis – Parte 1
Era uma noite fria de sábado. O ano era 2002. Aquela seria uma grande noite. Contrariando a todas as minhas vontades, iria à uma festa junina que a Igreja Católica do meu bairro realizava todos os anos e que hoje, já não existe mais. Na verdade, odiava aquelas festas, mas essa seria especial. Coloquei minha velha jaqueta para combater o frio, vesti minha camisa do Metallica e uma calça big (no maior estilo caipira, vejam só!). Passei gel no cabelo, coisa que raramente faço, mas como disse, aquela noite era a grande noite. Para finalizar, passei o melhor perfume que tinha em casa. Tomei banho com ele. Finalmente iria realizar meu sonho de ficar com Karolina (nome fictício). Eu gostava dela desde os meus 14 anos, e agora com 16, conseguiria dar o tão sonhado beijo nela. O que antes todo mundo sabia (que eu era apaixonado por ela, o que me rendeu muitos anos de zoação), fazia questão de esconder. Depois de muito tempo, consegui puxar papo com a garota. Uma ou duas palavras. O grande caso é que me aproximei dela depois que meu amigo Matias (mais um nome inventado) começou ficar com Patrícia, a irmã dela. Alguns dias antes dessa noite histórica, ele resolveu convidar a menina para assistir o Homem-Aranha no cinema. Matias pediu para eu falar com a Karolina, para ela falar para a irmã dela, sobre o convite. É claro que aproveitei para chamar a minha pretendente para ir também. No final deu tudo errado, mas Karolina disse que sua irmã iria na festa junina do bairro e lá eles poderiam ficar de novo. E essa era minha grande oportunidade também! Matias e eu combinamos um horário para sair, não era muito longe, no quarteirão ao lado da minha casa. Ficamos lá por um bom tempo, apareceram mais amigos e amigas para se juntar a turma. Mas a pessoa que eu estava esperando ainda não havia chegado. Vamos passar a fita para frente: a irmã da Karolina apareceu e Matias sumiu com ela. Meus amigos, alguns foram ficar com as meninas que estavam conosco, outros saíram para farrear, beber e dar risada. Fiquei sozinho. Se a Patrícia havia chegado, obviamente a sua irmã estaria lá. Desci do salão de festas da igreja para as barracas que estavam montadas na rua. Me aproximando de uma, vi que Karolina estava trabalhando nela. Enfiei as mãos nos bolsos do jaco e me dirigi até o lugar. Foi quando se aproximou um cara. Ela olhou para ele e sorriu. Karolina abriu os braços e os dois deram um beijo. Na minha frente. Aquele rapaz era namorado dela. Nem preciso dizer que o mundo parou naquele momento e meu coração se partiu em um milhão de pedaços e que, nem em uma noite inteira, iria conseguir recolher todos os cacos espalhados pelo chão. Me virei e fui embora sem avisar ninguém. Segurei o que pude, mas acabei derramando algumas lágrimas involuntárias escondido na área dos fundos da minha casa. Meu cãozinho se aproximou de mim, me olhou e deitou do meu lado. Parece que ele sabia que eu estava sofrendo. Ele era o único amigo com quem poderia compartilhar aquele momento triste. O povo de casa estranhou eu ter chegado cedo, antes da festa acabar. Meu pai ficou revoltado: “Como você vai embora de um lugar cheio de jovens se divertindo? Com um monte de moças bonitas lá!” - disse ele sem saber que a única que me interessava, estava com outro cara e que nenhuma garota em sã consciência iria ficar comigo. Eu era um loser. Fiquei algumas horas deitado na minha cama sentindo pena de mim mesmo. Se fosse hoje, me chamariam de emo. Chegou um amigo meu e disse que sabia que eu tinha ido embora por causa dela e que ela não me merecia blá, blá, blá, blás. Mandei ele sumir. Queria que ELA entrasse por aquela porta e pedisse pelamordedeus para eu voltar. Passei o resto da noite toda na fossa assistindo o Zorra Total. Decadência...
Escrito por Ronaldo Ruiz às 22h45
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